maio 22, 2009
Intérprete
Um dia é só um dia e depois, existe-se, para lá das coisas e coisinhas impressas nos quiosques ou no pó das ondas. Minutos sempre passaram e hão-de passar (ao lado) por todos nós (cegos), é um ciclo (da água).
A selva engole o indivíduo porque ele engole a seiva e cresce com todos os elementos, é impossível desenvolver uma forma de comunicação que torne tolerável a ausência de conteúdo.
Publicado por inquilino às 04:42 AM | Comentários (0)
Redondilha maior, rima pobre
Oh, pobre de quem não tem
A semente de narciso
De quem se ri ao espelho
Nenhum medo de ser velho
Feio, sem dentes, mas riso
Oh, pobre de quem não tem
Depois de me ir embora
Deste mundo, como entrei
Aos berros a espernear
Espero poder deixar
Sem culpa, tudo o que amei
Depois de me ir embora
Quando for grande, ou maior
Quando tiver estilhaçado
A pequenez das grilhetas
Chupado todas as tetas
Serei menos desgraçado
Quando for grande ou maior
Publicado por inquilino às 04:24 AM | Comentários (2)
maio 05, 2009
Impressão
conduzir sem Se adicionar ao elemento
Sopa sem sal, pão sem fermento
Universal é a razão do meu despeito
e só, sem correr nem sair do leito
apraz contar os métodos de impressão
ao senhor tipógrafo da esquina
e usar a palavRa Coração
só porque se ama uma menina
resolve-me a frase, puxa-me a cadeira
acaba de vez com a canseira
de te comunicar por entre dentes a ferida
aberta de saber-me sem título
Publicado por inquilino às 10:17 PM | Comentários (0)
abril 15, 2009
Heart-shaped box
Como de um título eu fiz alguém
Em pena não é pouco nem é tanto
E há desdém nas palavras aos bocados
Rimar é triste, com métrica ou sem
Porque é oco, é de pau e não é santo
Tem ângulos, arestas, volume e muitos lados
A personalidade de um poema é sempre trauma
Seja tradição ou geometria
E o que pensas é resposta
Pergunta, intuição
Defesa, perspectiva decomposta
Nasce inspiração
Morre fobia!
Publicado por inquilino às 02:32 AM | Comentários (1)
abril 13, 2009
O canto é triste, assim desiludido...
Refreia-me o tom com que vais dizer
que é tão vulgar este meu vício
que é só gastar, que é desperdício
que há coisas melhores para fazer
já sei que pensas que é só estupidez
mas há maneiras e maneiras
porque a linguagem tem fronteiras
limites que às vezes não vês
diz-me só se te faz feliz
dizer-me as coisas como mais ninguém diz
um dia eu vou deixar de te ouvir
repito, um dia eu vou deixar de te ouvir
modera a tensão que te vem na voz
dessa maneira ficas feia
e se ele há coisa que eu não queira
é que amanhã acordemos sós
fala-me ao ouvido e sem malvadez
tira o sarcasmo da expressão
falemos juntos, no colchão
depois fazemos tudo outra vez
Feromona - Conversa de Cama
Publicado por inquilino às 11:37 PM | Comentários (0)
março 17, 2009
aparte
Há uma parte de mim que não dança, há um resto de mim, depois de mim mas antes de qualquer coisa, que repousa, que recusa o pulsar da melodia e não bate ao ritmo certo.
Há um novelo que vem de dentro e que estanca o sangue, como um garrote apertado, todo um eu ensarilhado nele mesmo.
Ainda não desisti de fazer dançar o coração...
Publicado por inquilino às 02:53 AM | Comentários (0)
março 10, 2009
um clip sem nexo
Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num 'clip' sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e 'rock'n roll'
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Meu amor, meu amor, meu amor...
Cazuza - Faz Parte do Meu Show
Publicado por inquilino às 07:41 PM | Comentários (0)
março 03, 2009
Déspota
Ah, entranhas que se fazem regato...
Redemoínham de sangue e de dor!
Trinta chibatadas! D'ódio ou d'amor?
Cuspiu na cara quem comeu no prato!
Cheirou com a língua, viu com o tacto.
Ribombar da vida... seja o que for...
Certezas a mais em pranto ou calor
acabam. Porque homens banais são mato!
Eu? Enrolado em concha sobre mim...
Guardo a dúvida com unhas e dentes,
ao mesmo tempo meu escudo e espada.
O poeta diz não? O poema diz sim!
Trazem ao mundo aquilo que sentes,
mesmo que acabes por não dizer nada...
Publicado por inquilino às 02:05 AM | Comentários (0)
dezembro 25, 2008
Ignorance is bliss!
(...)
No, fly me, fly me, far as pole from pole;
Rise Alps between us! and whole oceans roll!
Ah, come not, write not, think not once of me,
Nor share one pang of all I felt for thee.
(...)
How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd ...
(...)
Alexander Pope - Eloisa to Abelard
Publicado por inquilino às 04:08 AM | Comentários (0)
novembro 05, 2008
Cruel honesty
Me - you know how I always say I hate people who smile to your face and mock you or scorn you the moment you turn your back?
She - ...yeah ?!?
Me - ...well ... I guess I'll just stop smiling to your face
Publicado por inquilino às 06:25 PM | Comentários (0)
outubro 08, 2008
Capela Sistina
Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm
Last night I felt
Real arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm
So, tell me how long
Before the last one ?
And tell me how long
Before the right one ?
The story is old - I KNOW
But it goes on
The story is old - I KNOW
But it goes on
Oh, GOES ON
And on
Oh, goes on
And on
The Smiths - Last night I dreamt that somebody loved me
Publicado por inquilino às 07:11 AM | Comentários (0)
agosto 29, 2008
perdido
Ícaro
Minhas asas humanas de poeta
Derreteu-as o sol da lucidez
Cego, abria-as ao vento da inspiração e voava
Mas pouco-a-pouco como quem desperta
Dei conta da cegueira
e fui perdendo altura
Agora canto apenas ao rés-do-chão da vida
A olhar o descampado do céu azul
Aberto à graça de outras emoções
E o canto é triste, assim desiludido
Falta-lhe a perspectiva e o sentido
Que tinha quando eu tinha as ilusões
Miguel Torga
Publicado por inquilino às 04:05 PM | Comentários (0)
julho 29, 2008
Epitáfio
As rosas creme em bouquet adornam uma simples tristeza
Profanada em pele carmim e despojada de intenções
(alguém disse um dia "eu não quero chorar")
Respiro-me na incandescência de imoralidades que não pratico
(não porque sejam imorais, mais por não as praticar)
E procuro fugir aos excessos de análise inconsequente
(não porque sejam inconsequentes, mais porque são involuntários)
As ruas não vão dar a mim e eu sinto-me muito encruzilhado.
Publicado por inquilino às 04:48 AM | Comentários (0)
julho 20, 2008
Oftalmologia
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos - II
Publicado por inquilino às 05:39 AM | Comentários (0)
junho 27, 2008
Amália ... Amáliar-te
Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior
Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior
Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor
Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor
Acho inúteis os sorrisos
Quando a noite nos procura
Inúteis são minhas penas
P'ra te falar de ternura
Acho inúteis nossas bocas
Quando voltar o pecado
Acho inúteis nossas bocas
Quando voltar o pecado
Inúteis são os meus olhos
P'ra te falar do passado
Inúteis são os meus olhos
P'ra te falar do passado
Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza
Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza
Inúteis são minhas mãos
Nessa hora de pureza
Inúteis são minhas mãos
Nessa hora de pureza
Amália
Acho Inúteis as Palavras (António S. Freitas/José Marques)
Publicado por inquilino às 05:45 PM | Comentários (0)